“Várias e bem timbradas vozes moraram na voz de José Correia Tavares (12/4/1938–18/1/2018). Generoso como poucos, o seu retrato mais fiel é uma torrente de palavras, um fluxo constante, ininterrupto de recordações.”

Por: Teresa Martins Marques

Várias e bem timbradas vozes moraram na voz de José Correia Tavares (12/4/1938–18/1/2018). Generoso como poucos, o seu retrato mais fiel é uma torrente de palavras, um fluxo constante, ininterrupto de recordações. Licenciado em Ciências Antropológicas e Etnológicas, técnico superior do Ministério da Educação, vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores, à qual dedicou mais de três décadas da sua vida. Poeta, romancista e jornalista, entre os títulos publicados contam-se: Dádiva (1961), A flor e o muro (1962), Três natais (1967), Beijos e pedradas (1975), E não me tiveram (1967), Fim de citação (1976), Rio sem ponte (1977), Ganhar Ofício (1977), Atraído ao engano (1984), O Verso e o rosto (1987), Todas estas palavras(1989), Molduras com espelhos (2000), O Timbre das Vozes (2001), O Natal dos porcos (2003), Olhando as Margens (2012), Sem prazo de validade (2014), Livre do Desassossego (2015), Nebulosa de factos (2016), Velhos são os caminhos(2017).

Muito poucos conhecerão a sua voz arguta de entrevistador de personalidades do mundo das Artes e Letras publicadas em O Timbre das Vozes[1] que reúne trinta e oito entrevistas realizadas ao longo de vinte e cinco anos, entre 1957 e 1982, para o Jornal de Letras e Artes, Livros de Portugal, Musidisco, Reconquista, Rumos, Notícia, Momento, Artes e Letras (suplemento de República), Diário de Lisboa, Jornal do Fundão, Beira Baixa.

Entre os entrevistados contam-se figuras ligadas à Literatura (Alberto Sampaio, Alice Gomes, Alves Redol, Antunes da Silva, Armando Silva Carvalho, Domingos Fernandes, E. M. de Melo e Castro, João Cabral de Melo Neto, José Marmelo e Silva. Manuel Ferreira, Maria de Lourdes Belchior, Natália Correia, Romeu Correia, Urbano Tavares Rodrigues), à Edição e Difusão do Livro (Álvaro Moura Bessa, João Sá da Costa, José da Costa e Silva — Almarjão, Manuel Salvat, Mário Perdigão, Nicolau Firmino, Silvério Pedroso Amaro), ao Teatro (Assis Pacheco, Bernardo Santareno, Florbela Queiroz, João Villaret, Laura Alves, Rogério Paulo), à Música (Amália Rodrigues, Nina Marques Pereira, Vasco Barbosa), às Artes Plásticas (Sá Nogueira), ao Desporto, na sua modalidade de ciclismo (Alves Barbosa e Ribeiro da Silva). O volume fecha com uma entrevista de 1987, sendo José Correia Tavares entrevistado por Miguel Serrano, para o Suplemento Cultural de O Diário, em 8 de Agosto daquele ano.

Em Tecnologia de la Informácion Luka Brajnovic[2] distingue as entrevistas quanto ao respectivo conteúdo, classificando-as relativamente ao seu conteúdo como informativasopinativas e ilustrativas (biográficas ou de personalidade). São as últimas as que interessam, sobremaneira, José Correia Tavares e que pelas suas características estão menos sujeitas à desactualização. Ainda, segundo Brajonic, nas entrevistas de personalidade o bom entrevistador é o que consegue levar o entrevistado a fazer o seu auto-retrato, dando-se a conhecer por dentro.

Assim com a entrevista sobre Amália, que abre este volume, e onde vemos a artista sur le vif, em 1968, pedindo ao entrevistador para não publicar parte da entrevista, ”pelo menos enquanto for viva”, pedido esse rigorosamente cumprido por José Correia Tavares, que apenas em 2001 publicou esse depoimento inédito. Referia-se Amália à recepção crítica, algo decepcionante, da sua participação na peça de Lorca A Sapateira Prodigiosa. Considerando o teatro uma brincadeira, entende que já não tem idade para brincadeiras, todavia não resistiu a fazer a peça. É dura a fazer auto-crítica, relativamente ao seu trabalho na Severa, que caracteriza como “amáliazada”, pois acha que nunca aprendeu a ser actriz. Sentimos ao longo da entrevista a mágoa de Amália, que se revela melhor devido à empatia total com o entrevistador, razão, pela qual se entrega a confidências sobre a incompreensão e despropósito da linguagem da crítica. E é como se Amália estivesse sentada connosco ao serão, sem falsa modéstia, irónica, espontânea e acutilante, como ela sabia ser, quando queria sê-lo: «Tenho sido apreciada pelos críticos mais severos de todo o mundo onde há espectáculo e intelectuais a artistas a sério, e tenho sido classificada como uma das melhores artistas que há no mundo. E note bem, crítico que me ouve, que não estou a dizer que sou. Tenho sido classificada. Não venha agora um qualquer pegar em mim e cortar-me aos pedaços com arma branca. Que não é aos tiros. Com tiros é mais simpático. — Vai a umas surtidas lá fora… Ena, ena!, é troçar daquilo que faço, e estou convencida que o que faço é uma lança em África. Só pode falar assim quem não sabe o que eu fiz. (…) Ena, ena! Vai a umas surtidas ao Olympia e vai à América… é fazer troça! Nem é da crítica. Não tem nada a ver com a Sapateira. Eu também sabia que não tinha idade. Conheço a peça muito bem. Alterou-se um pouco para eu fazer a brincadeira e não matámos o García Lorca. Coitados dos génios se pudessem ser mortos assim por qualquer pessoa. O sol é grande, é enorme, e toda a gente olha para ele.»

A parte da entrevista que Amália autorizou, logo em 1968, é também muito interessante como retrato inteiro da artista, revelando uma figura complexa, na sua aparente simplicidade e, sobretudo, se comparada com a parte que só postumamente foi publicada. « (…) acreditar em mim, nunca acreditei verdadeiramente.» É também muito curiosa a influência que Amália reconhece, na sua forma de cantar, «daquelas ondas que o povo da Beira Baixa põe na voz quando canta» (e só depois de o dizer, toma conhecimento de que o entrevistador é natural de Castelo Branco). A frescura das respostas de Amália devem-se muito à simplicidade com que o entrevistador se lhe dirige, pois bem sabemos como ela era defensiva em muitas ocasiões. Já havia comparado a sua passagem pelo teatro às sardinhas assadas «uma coisa de que a gente gosta muito e, apesar de sabermos que nos fazem mal, comemos de vez em quando.» (p.9). Agora compara a sua carreira artística à batata: «A minha carreira é como a da batata. Nasce da terra e depois tiram-na e cozem-na ou fritam-na, mas é sempre batata. Nasci e aconteceram-me coisas, não sei, talvez por destino, por…fado.» (p.43) E, depois de algumas contradições, sobre a riqueza e o veditismo, volta a insistir, com muita frescura, no destino: «Nunca pensei em ser vedeta, em me cultivar, nem em chegar fosse aonde fosse, nem em ser rica. Gostava, por exemplo, de ser o Frank Sinatra. Ai, isso gostava! Gostava de ser rica, riquíssima. Gostava mesmo de ter um poço de dinheiro, daqueles que nunca mais acabam. Mas fazer alguma coisa para alguma vez ser rica, nunca fiz. Nem para se vedeta. Gostava de ser bonita e nunca na minha vida fiz um tratamento de beleza. Nunca fui capaz de fazer nada. Tudo me aconteceu. E se tudo me aconteceu, só posso acreditar no destino…Que Deus e os homens me perdoem se acharem que isto é pecado, mas estou convencida de que Deus Nosso Senhor gosta de mim. Naturalmente agora está a castigar-me pelo pecado de orgulho…» (p.43–44)

É surpreendente que o jovem Correia Tavares não se atemorize perante a vedeta, pois não hesita em chamar-lhe a atenção para as contradições, sempre de forma subtil e não é difícil “ver” o sorriso entre o ingénuo e o maroto que lhe dirige e que é a melhor forma de colocar as questões. Vê-se que Correia Tavares não simpatiza muito com a ideia de “destino” e por isso atira-lhe a pergunta, terminando com significativas reticências… : «Se desconhece como se cumpriu o seu caminho até aqui, também não sabe o que poderá fazer a partir desta data…» Amália não se dá por achada, mas responde sempre à defesa, tocando a tecla da simplicidade e da humildade. « Eu nunca quis fazer nada pelo fado e longe de mim a ideia de vir a fazer alguma coisa.(…) Eu, de uma maneira geral, estou sempre convencida que não vou fazer nada.» Correia Tavares não desarma: «Mas você não se limita a cantar, Amália. Escolhe os poemas e as melodias que interpreta. Não estará isso em desacordo com o que disse?» Amália: «Nunca estive em desacordo comigo.» (p.44). Resposta ao lado, é claro…, pois era a noção de destino que estava em causa, na conversa…

Esta entrevista é bem a prova desse desacordo consigo mesma, o que só lhe fica bem, pois a dúvida e a certeza são a escada alternada da sabedoria. Disse-o José Rodrigues Miguéis. Por isso esta entrevista de Amália funciona tão bem, mostrando-se dura ou terna, simples ou assumida, mas sempre com a limpidez da autenticidade. Tal qual o que ela era, parafraseando o título da primeira das novelas de Gaivotas em Terra, de David Mourão-Ferreira, poeta que é impossível não associarmos a Amália Rodrigues, não apenas pelos fados e canções que Amália cantou sobre poemas de David, mas também porque foi ela mesma que interpretou a fadista Maria do Amparo — personagem da quarta novela de Gaivotas em Terra no filme de Jorge Brum do Canto — Fado Corrido (1964), frágil adaptação de «Agora o fado Corrido».

Uma das melhores entrevistas do volume é feita a João Cabral de Melo Neto, publicada no Jornal de Letras e Artes em 8 de Junho de 1966, bem como um seu excerto, em Livros de Portugal, no mesmo mês. A humanidade do entrevistador que muito contribui para lhe abrir portas, vem ao de cima logo na introdução: «Damos início à entrevista como se fôssemos amigos de longa data.» (p.83) E conta-nos em nota final como tudo aconteceu, permitindo este contar rever personalidades, compreender relações, ver os homens na sua humanidade. E deixa subentendidos sobre o mundo dos jornais e a questão da não-assinatura desta sua entrevista: «Não preparei minimamente esta entrevista. A pedido do chefe de redacção, que por mero acaso me encontrou no jornal ao fim da tarde, logo saindo, chamei um táxi e fui entrevistar João Cabral de Melo Neto, em casa do adido cultural brasileiro, Odylo Costa, filho — escritor e poeta de rara sensibilidade que ainda não conhecia e de quem vim a ser muito amigo. O autor de Morte e Vida Severina deu-me depois boleia até ao Teatro Avenida, onde também assisti por gentileza sua (eu não tinha bilhete e a lotação estava esgotada) à representação daquele poema. Ainda no passeio apresentou-me o Alexandre O’Neill. Talvez um dia, pelo interesse dalgumas das suas peripécias, desenvolva toda esta história. Para já apenas direi que: a entrevista não saiu assinada; o chefe de redacção era…o crítico de teatro do Jornal Artes e Letras.[3] No mesmo número, a autoria de uma entrevista minha com Alice Gomes, mais atrás neste livro, vinha devidamente autenticada.» (p.87) Mas ainda bem que Correia Tavares a publicou em livro, sob a foram de depoimento do autor, relevando a mise-en-scène: «Por vezes a comunicação depende mais da forma como o assunto é posto, do que do próprio assunto, sua clareza e grau de interesse» (p.84) João Cabral explica longamente a razão da utilização das formas populares, as do romanceiro: «Se utilizasse outra linguagem, se tivesse posto alexandrinos na boca de um retirante analfabeto, teria caído na oratória, no requinte, e não atingia o objectivo em vista. O povo só sente o romanceiro popular» (p.84). Muito interessantes são também as suas declarações sobre as origens do concretismo, desmistificando alguns lugares comuns: «Não sou um concretista. O concretismo — dizem-no os membros do movimento — surgiu a partir da minha poesia. Afirmam-se pois meus seguidores. Tenho orgulho nisso, pois trata-se de um grupo de jovens poetas, extremados tecnicamente, muito inteligentes e de grande craveira intelectual. O Brasil de São Paulo. Introduziram o debate de questões que nenhuma crítico havia aberto antes. Têm todos um grande amor à literatura, à polémica, à briga.» (p.85). Se bem que João Cabral entenda haver um tecnicismo algo exagerado naquela poesia, não deixa de afirmar que «não é menos certo que o concretismo deu ao Brasil uma extraordinária consciência de crítica, que exige a quem escreve uma seriedade e uma autenticidade cada vez maiores. Muitos dos que começaram comigo não teriam agora possibilidade de se afirmar. Os concretistas desempenham hoje [1966] um papel idêntico ao de Mário de Andrade no seu tempo.» (p.85–86)

Uma das respostas mais acutilantes do autor de Morte e Vida Severina é a que a seguir transcrevo, tendo José Correia Tavares, muito oportunamente, escolhido a parte final para abertura e destaque da entrevista: «O Brasil é o país da bossa, da improvisação. Em Portugal e Espanha acontece o mesmo. Todo o brasileiro tem talento, mas não se podem abandonar ao talento 80 milhões de brasileiros». Uma apologia do trabalho, do labor poético, da technearistotélica, que tão bem caracteriza a poesia de Melo Neto. Sem com isso se negar a também aristotélica physis — o tal talento do oitenta milhões ironicamente bem contados… É com a aliança da physis e da techne que se exprime a vida. Vida que encontramos nomeada no temário exaustivo apresentado aqui por Urbano Tavares Rodrigues (a fraternidade, a coragem, o egoísmo e altruísmo, o conflito dos sexos, o amor e o desejo e a morte). Temário que se aplica ao conjunto da sua obra e não apenas à que havia publicado até àquela data, o que confirma a coerência deste escritor. Aliás a visão futurante de Urbano é ainda notável na resposta que dá sobre a sua geração, como criadora de alicerces de um romance universal de características nacionais, pois a maior parte dos escritores que refere viriam a tornar-se nomes cimeiros da ficção do século XX, e note-se que alguns deles ainda davam em 1960, os primeiros passos nos caminhos da ficção: Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Fernanda Botelho, David Mourão- Ferreira, Agustina Bessa-Luís, Cardoso Pires, Maria Judite de Carvalho, Vergílio Ferreira. Quando Correia Tavares pergunta a Urbano qual deve ser a posição do escritor, perante os múltiplos problemas do mundo de hoje, ele reponde com extremo cuidado, pois bem sabemos nós que se lê nesta pergunta a questão da função social da arte ou da arte pela arte, que tanta tinta fez correr a neo-realistas e presencistas: «Custa-me dizer deve ser, porque concebo a criação literária como inteiramente livre. Se o escritor for solicitado apenas pelas subtilezas e pelas convulsões do seu universo interior, que o faça o melhor que possa e saiba. Se sentir o apelo de uma comunhão com os outros homens, como forma de dar um sentido e uma dignificação à sua existência, a sua obra será, se tiver as necessárias condições artísticas, tanto mais ampla e universal.» (p.177–178).

É muito interessante a entrevista feita ao autor de Sedução — José Marmelo e Silva, chamando a atenção, entre outros aspectos, para as relações entre a Eneida e Os Lusíadas, consideradas de um ponto de vista corajoso, posto em relevo por Marmelo e Silva na sua dissertação de licenciatura Um Sonho de Paz Bimilenário: A Poesia Épica de Virgílio (1940) julgando «a matéria épica renascentista menos amadurecida que a das poéticas clássicas. Em confronto com a Eneida, o poema apresenta-se-nos, de certo modo, cru e precipitado. É que a Eneida nascera do lendário cantante dos poetas; Os Lusíadas, da poeira morta dos cronistas.»[4] Estamos em 1966, numa altura de grande encantamento dos nossos maîtres-à-penser pelo nouveau roman e José Marmelo e Silva não hesita em declarar «que o Robbe- Grillet foi beber à Eneida, à Eneida, sim, mas isso ninguém diz»[5]. Disse-o ele, como se vê, e não teve pejo em publicá-lo José Correia Tavares, com a coragem e honestidade intelectual que todos lhe reconhecemos e que Miguel Serrano resumiu, em frase lapidar, na última entrevista que fecha aquele volume: «José Correia Tavares, poeta, cidadão honrado», acrescentando-lhe em seguida: « (…) diz dele e do mundo, da palavra poesia e da palavra fraternidade, com a franqueza de quem sabe olhar bem no fundo dos olhos os olhos do mundo.»[6] (p. 191) Esta asserção do autor de Praia da Memória, amplamente confirmada pelo percurso intelectual do autor de O Timbre das Vozes, encontrou eco na frase que fecha o prefácio deste volume, assinado por Baptista-Bastos: «O timbre de uma voz honrada, o timbre do homem íntegro que me honra como amigo, que me orgulha como intelectual, que é o José Correia Tavares.»[7] (p.6)

Na citada entrevista de Miguel Serrano, que encontra a motivação imediata no volume O Verso e o Rosto, Correia Tavares clarifica o seu percurso: «É de facto um longo itinerário e sem dúvida linear, por de há muito assumido, feito razão de ser, a que tento de uma forma não muito empenhada, diga-se em abono da verdade — dar prossecução num tempo português, o das últimas três décadas, nunca inteiro, espelhadamente feito rosto nosso, colectivo, vivido quase sempre em fascículos, nunca obra, nem no verso nem na vida, de lombada por aí além, não raro até de lambada, mais esta do que aquela, pois a um percurso assim, ao meu, a outros semelhantes, iguais em coerência, se quiser em teimosia, terei eu que considerar linear, mas de linha quebrada, feito aos ziguezagues, pára e arranca, marcha sempre angulosa na progressão, como se procurando fugir à mira de armas de tiro tenso nos procurando alvejar, à poesia, a este modo, talvez um pouco ingénuo, não raro sábio, subtil, de por ela, com ela estar na vida.»[8](p.192)

Músico de palavras de ouvido, de palavras-síntese, como lhe chamou Miguel Serrano, entendendo o ofício de poeta na sua função interventiva que a ultrapassa «de modo que poeta e poesia, e este nem sempre através desta, pelo menos da escrita, porque ser poeta é toda uma filosofia, uma maneira nada canalha de estar no mundo, não podem, de facto, estar dissociados da sociedade em que se inserem, a que vão buscar seu alimento, para viver ou, é também às vezes o caso, morrer — porque ele, o alimento, intencionalmente ou não, é por outros envenenado.»[9] (p.196)

Mas não se entenda que este poeta desloca a poesia para campos tangenciais ao fenómeno poético. É da defesa da poesia que aqui se trata, parafraseando o título de Shelley : «Defender o poeta, a poesia de todas as agressões, das solicitações (…). Defender em mim o poeta que também sou, mesmo dos outros em mim que, não o sendo, o prejudicam em maior ou menor escala.» e é sob o signo da inquietação paradoxística, com laivos de herança romântica, que este se define: «Mesmo nos espaços de equação e equilíbrio, o inconformismo do poeta é uma constante, ser inquieto por natureza condicionado a uma vida de absolutos relativos». [10] (p.197)

Nenhum artista consegue fugir ao tempo histórico que é o seu. Neste livro as próprias marcas do tempo político estão assinaladas, nomeadamente na entrevista a Bernardo Santareno, marcas que tornam possível “vizualizar “ o traço do lápis azul da censura, porque Correia Tavares nos faz a gentileza de colocar a bold tudo o que foi cortado. Entrevistas como estas compensam-nos dos dias cinzentos revelando-se importantes como exercício da memória, mas deixam-nos também um travo de melancolia, ao vermos como os sucessos de um momento são já poeira antecipada de esquecimento. Também por isso este livro é importante, lembrando aos nomes sonantes de hoje, que a única coisa que é possível acrescentar à glória é a humildade. Quão fácil é sair da caixa alta dos acontecimentos e passar a simples nota, no imenso rodapé da História!

Lisboa, 21 de Janeiro de 2018.

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[1] José Correia Tavares, O Timbre das Vozes, 2ª ed., 2003 [2001], Lisboa, Garrido Editores.

[2] Cf. Silva Araújo, Vamos falar de Jornalismo, Lisboa, Direcção Geral da Comunicação Social, 1988, p.127.

[3] O chefe de redacção e crítico de teatro que José Correia Tavares não nomeia era Bruno da Ponte.

[4] Inicialmente em Jornal de Letras e Artes, 9-III-1966. Presentemente no volume supra referido, p. 112.

[5] Idem. Ibidem.

[6] Idem, p. 191.

[7] Idem, p.6.

[8] Idem, p. 192.

[9] Idem, p. 196.

[10] Idem, p. 197.

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© Teresa Martins Marques, Revista Caliban, Janeiro de 2018