“A. M. Pires Cabral e eu presidimos, no primeiro triénio de vida da Academia de Letras de Trás-os-Montes (2010-2013), à Assembleia-Geral e Direcção. No segundo triénio, sucedi-lhe como presidente da Assembleia-Geral.”

A. M. Pires Cabral e eu presidimos, no primeiro triénio de vida da Academia de Letras de Trás-os-Montes (2010-2013), à Assembleia-Geral e Direcção. No segundo triénio, sucedi-lhe como presidente da Assembleia-Geral.

Mal tomou posse a Direcção, fui convocado para organizar, com Amadeu Ferreira, uma ‘antologia de autores transmontanos’, que intitulei A Terra de Duas Línguas ‒ em 2013, sairia segundo volume ‒, mas propus, igualmente, soma representativa dos 70 anos de Pires Cabral, lançada em Macedo de Cavaleiros, no aniversário de 13 de Agosto de 2011. Incumbiram-se da selecção e organização Isabel Alves e Hercília Agarez. Além de um excelente aperitivo para quem não possa abarcar obra multímoda, e descontada a recepção crítica em periódicos, temos aí a bibliografia deste artista dos sete ofícios.

Na badana da capa, escrevi: «Com uma cinquentena de títulos em poesia, conto, romance, crónica, teatro, além de estudos e monografias» ‒ já contei sete ‒, «e largamente representado em antologias, a sua obra é cada vez mais traduzida». Acrescentando: «No seu amor às raízes, veio erguendo, desde 1974, um universo de tipos, situações e linguagens que o integram na família de Trindade Coelho e outros ilustres da região. Como poeta, goza de uma irradiação próxima do culto junto de leitores avisados, tal a força do seu artesanato lírico desaguando numa vocalidade própria.»

Na contracapa, assinalei ser «o primeiro volume dedicado [pela Academia de Letras de Trás-os-Montes] a um autor», o que «diz da importância que atribuímos a quem, desde o significativo título da estreia – Algures a Nordeste (1974) –, faz de cada obra, também como inesperado aguarelista, “uma homenagem ao povo em cujo seio tive a sorte de nascer”, como escreve em nota à 3.ª ed. de O Diabo Veio ao Enterro (2010)». Louvei «a selecção inteligente desse solo arável – com reflexos em segmentos da geração lírica seguinte», e, «como entrada no seu reino maravilhoso, [saudei] a bem achada tripartição em lugares, homens, bichos; principais vectores, [relevei] inquietações na relação entre Viagem e Tempo, e seus efeitos sobre uma interioridade; ou a dúvida», numa alusão ao romance, entretanto traduzido em italiano, O Cónego, de que falarei adiante.

Comecemos pelo ofício genesíaco.

Ao apresentar publicamente, e recensear na revista Estudos Italianos em Portugal, os trinta poemas bilingues de Le illeggibili pagine dell’acqua, tradução de Giorgio de Marchis[1], notei que Algures a Nordeste coligia escritos desde 1962, licenciava-se o autor em Filologia Germânica, na Faculdade de Letras de Coimbra. A crise académica limpara-o das teias de aranha românticas e da eloquência de Junqueiro. Essa tardia edição de província é, hoje, não só rara, como sinaliza as preocupações de quem melhor deu – também na ficção, no teatro, na crónica, na monografia, em reportagens ou guias e na dicionarização de provincianismos – cambiantes da vida transmontana. Acabo de listar, sob outra forma, sete ofícios.

Giorgio de Marchis privilegia esse subintitulado Catálogo de feios, simples e humildes (título da edição alemã, bilingue, Bremen, 1983), e não só abre pelo germinal “Hic et Nunc”, como nos ilumina com uma introdução de título-paráfrase, “Versi da Nordest” (p. 11-16).

Sucinta nota bibliográfica deixa logo perceber o essencial da poesia, romance, conto e teatro até 2011. Releve-se o último romance, O Cónego (2007), com tradução italiana[2]. Quanto à conjugação entre este rodapé e o conjunto, levantam-se os seguintes problemas: são citados doze títulos, até Cobra d’Água (2011), e só não há recolha de Os Cavalos da Noite (1982): ora, se este comparece, porque não Sabei por Onde a Luz (1983) e Desta Água Beberei (1999)? Na ordem dos poemas, As Têmporas da Cinza (2008) deveriam vir antes de Arado (2009); e, neste, a quintilha das pp. 82-83 é, de facto, um dístico seguido de terceto. Mais importante: se Artes Marginais(antologia poética, 1998) é referida em nota subsequente, não devera ser esquecido Antes Que o Rio Seque. Poesia Reunida, última demão autoral, para textos até 2006.

Esta segunda antologia revê a matéria desde a estreia: dos 46 poemas de 1974, suprimiu “O Homem”, mas, com interesse para a fixação textual, substituiu minúsculas iniciais pelas conformes maiúsculas, e regularizou a pontuação. Omitiu a dedicatória de “Os ceifeiros”, ‘A um jovem poeta’. Corrigiu «Quem lhe injuriou a música urgente?» para «Quem lhe injuriou o canto urgente?» (“A Cigarra”), aqui adoptado.

Giorgio de Marchis caracteriza muito bem «la tenace vocazione periférica» (p. 12) de A. M. Pires Cabral e a sua ligação a uma «terra postuma per eccellenza» (p. 14), mais deprimida nos anos 60, quando sangrou almas para a emigração: «Poesie su vecchi, zingari, contadini, insetti, e alberi, come se l’autore volesse cartografare in nei minimi dettagli il suo território, per riscattare dall’oblio la sua gente […], abbandonata da secoli a se stessa e al suo intimo isolamento […]» (p. 13). Nas últimas recolhas, o poeta olha aos instrumentos agrícolas, relê a paisagem, segue as aves, reflecte cada vez mais sobre a morte, em busca de luz…

Por exemplo: os 19 poemas breves de Que Comboio É Este (2005) são uma bela síntese dessa viagem interior, com cimos surrealizantes («Minto: o salmão apeou-se / na estação anterior.»; ou o comboio semelhando «um ovo por chocar», que podíamos aproximar de um grãozinho barroco sob a égide de Bosch), em flagrantes que nos tornam seus «companheiros de viagem», e trazem lembranças comuns. Viajante incerto, levado pelo rumor do título anaforizado, Que Comboio É Este convoca vizinhos de lugar literário, de Garrett a Pessoa, ou estrangeiros, e a figuração crística. Busca-se um continuado transbordo de sentidos, em que «passageiro» já «quer dizer: estou de passagem», qual «saltimbanco de olhos vendados, / sem vara e sem cautelas», sobre carris de abismos, num «pavor / perpendicular». O sucinto da metáfora, explosiva, carrila optimamente. Vislumbra-se, em sequência narrativa, viagem ao fim da noite, «visita ao miolo da noite», até ao derradeiro instante de, entre facas, se apear. Estamos dentro – ou somos cercados por comboio cúmplice da noite, em viagem de um só sentido.

Perseguindo aquela luz, que é uma evidência no aqui convocado Alberto Caeiro, fecha o prólogo com outra diferença, mas também semelhanças: «Lontana dalla fittizia serenità di Caeiro, la poesia di Pires Cabral assume, dunque, i contorni di un drama umanissimo e dolente in cui il dolore più vivo convive com la nitida coscienza di quanto sia ridicolo anche il próprio soffrire.» (p. 16) De um pudor avesso a coloridos, arrebiques e folclores, teimando «com mansidão», tira o artista «memória augusta e salutar» do «campo ferido» nordestino (p. 18), como se propôs no limiar de já longo itinerário. A escrita sobre a natureza, que alguns designam por ecocrítica, encontra terreno fértil neste universo, entretanto debruçado sobre o Rio Douro, ou microcosmizado em Terra Quente (Gaveta do Fundo, 2013), como se propôs no limiar de já longo itinerário. Aqui, toca a finados; é o fim da pax ruris, o reino de um imperfeito do indicativo, contando terra, rio e vida que ainda se provam resistentes, à imagem dos incisos familiares que são os melhores veios destes versos. A escrita sobre a natureza encontra terreno fértil neste universo, menos líquido que sólido, de emoção sustida, que reconhecemos universal.

A tradução ritma versos coloquiais, quase à letra, mimando encavalgamentos, com raras adaptações sintácticas e vocabulares, sempre felizes. A dificuldade está na estrofação breve: «Nada vereis aqui / quase: animais / de malícia pouca / contentes do seu corpo. // Quasi nulla vedrete / qui: qualche animale / di malizia poca / contento del suo corpo.» (p. 42-43) Ou aquela redondilha maior de “São Miguel da Pena”, aldeia vazia que o autor civil apresentou, em manhã de Janeiro, ao tradutor: «Viveu gente em São Miguel, / que depois aqui morreu / e se fez sepultar nesta / encruzilhada de ventos. // Visse gente a São Miguel / che poi qui morì / e si fece seppellire / in questo incrocio di venti.» (p. 52-53) Nada se perde, mas algo se transforma.

Já na ordem de uma particular linguagem e vicissitudes locais como referência (não no quadro de uma subjectividade, ou enfoque no eu, por que transita a lírica), o conto é ofício não menos nobre: gosto de associar os minifúndios da nossa sobrevivência ao conto, e sua adequação ao génio local. Esguelhado de Lisboa, tira-se cânone de Trindade Coelho, Torga, João de Araújo Correia; mas cumpre alinhar Domingos Monteiro, Bento da Cruz, Modesto Navarro, Nuno Nozelos, entre outros, que o também coordenador do Grémio Literário Vila-Realense trouxe para o debate. (Se acrescentássemos o activista cultural e assessor, o professor, fotógrafo e aguarelista, desaguávamos nos 12 trabalhos de Hércules…) Dos seis importantes prémios nacionais, desde 1983, é mais recente o Grande Prémio de Conto ‘Camilo Castelo Branco’, da Associação Portuguesa de Escritores / Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, atribuído, em 2011, a O Porco de Erimanto, onde, aliás, há refeitura sobre edição antiga, aspecto oficinal à atenção dos estudiosos, talvez mais evidente em O Diabo Veio ao Enterro. Contas do Nordeste, de 1985 e 1993, até à retocada 3.ª ed. de 2010. Em O Porco de Erimanto, não esquecerei certa senhora «tremendo de riso como pudim flã» (p. 51); e uma das primeiras referências a O Diabo Veio ao Enterro, por Alberto Miranda, editei-a nos Amigos de Bragança (8.ª série, 1, Março de 1986: 35-36), de que era proprietário. Acrescento o intitulado “O valete de paus”, que inseri n’O Escritor (2, Dezembro de 1993: 105-114) e na antologia A Madárember. Mai Portugál Elbeszélők (Budapest, Íbisz, 2000: 79-95): é a história de Eugénio Canavarro, o fidalgo da Casa do Marco, «jogador inveterado e, no geral, grande perdedor» (p. 105), que, no fim, paga a Onofre com um quarto de hora da mulher Isaura… Em Raquel e o Guerreiro (1995), o fidalgo chama-se Anselmo Raposo; ela é Raquel. Estas metamorfoses textuais pediriam outra atenção. Na ordem da contaminatio – incidentes e circunstâncias facilmente reconhecíveis, incluindo autobiografemas –, temos Singularidades (2017).

No terceiro ofício, dedicado ao romance, vou aos mais recentes, A Loba e o Rouxinol (2004) e O Cónego (2007).

Morrem os rouxinóis de paixão, se lhes trocam o ninho pela gaiola; assim o pai do narrador, na vila transmontana de Valeiros (redução de Macedo de Cavaleiros, como Sendim rima com a Chacim natal), três dias após a instalação em casa nova. Regressado ao motivo da casa (Crónica da Casa Ardida é título de 1992), Pires Cabral organiza a elegia, agora, de uma época do pequeno comércio e da palavra honrada, em fundo de guerra colonial e de nascente pato-bravismo na construção imobiliária, que vai alterar a fisionomia das praças. A Loba e o Rouxinol (2004) lê-se em quatro horas de puro gozo narrativo e vocabular; a composição das figuras, sobretudo de família ligada ao espírito do lugar, fixa um quadro exemplar também a desagregar-se nos idos de 60.

Na primeira parte do romance, vemos como casa e herói (diz este: «eu sou a casa», p. 180) desfalecem: a história batida à máquina dez anos após a morte de Carlos Rafael Sequeira Dinis (1901-1966) envolve os ramos ascendentes e colaterais de três irmãos, cujo benjamim evoca, em capítulos sincopados, os estratos de vila bafienta, um avô paterno fundador do espaço matricial – e que, dissipador, teve de alienar –, a avó agreste (morta em 1952, tinha Jorge 11 anos, como o autor), a loja, além do pai e da casa: a primeira ironia é ter esta sido promessa no nascimento de quem há-de viver nela, sim, mas alugada, já atravancada por corpos que crescem, decompondo-se a par do protagonista e da saúde de Maria do Loreto (a mãe, construção notável nos repentes, sacrifícios e forma de apaziguamento), que motiva as discussões familiares. Nestas, sugere-se a teimosia de carácter rodeada de algum mistério, que, perceberemos na segunda parte, é impotência e solidão social de um negócio nas vascas da morte, essa loba que ronda.

Vinte meses após o fúnebre 6 de Junho, o diário dos últimos quatro meses deixado pelo comerciante serve ao narrador para esclarecer o silencioso, mas falhado, esforço paterno, num relance de visitas a influentes locais, cuja simpatia (do médico, inveterado fumador, ao dono do café) vemos facilmente sobrelevada pela hipocrisia da banca e negociatas de senhorio não por acaso agente funerário e certo arrivista identificado aos cinco andares da nova era – tudo desaguando em cinismo.

O amor dos objectos e coisas particulares da vida provinciana que conformam a memória dos anos 50 e 60 será, para alguns, o melhor deste encadeamento, com remissões internas em vaivém conseguido (p. ex., «Mandaram-na para o caraças, dirá alguém a seu tempo», relaciona as p. 9 e 120). Assim, para retratar o geral e a passagem do tempo, que se supermercadiza (p. 35), convoca-se o singular: cómoda, cofre, espelho, cortinas, candeeiro, óculos, as palavras cruzadas e os casos do dia de O Comércio do Porto, certa Parker vinda de parente brasileiro, a balança António Pessoa, o chinelo ameaçador das mães, a vício do jogo e dos copos, etc. São breves, embora incisivos, os confrontos da Coimbra de 1962 com o salazarismo da vila e a iconografia dos lusitos em cadernos que usávamos na escola; o então Ultramar queima, num militar coleccionador de orelhas de pretos; o Agosto dos emigrantes é um fresco actualíssimo.

O autor diluiu a reconhecida arte dos localismos linguísticos fora dos diálogos e do bem apanhado pícaro Ambrósio Sardinha: para evitar alguns ruídos, explica-os (caso de soto, p. 32). Sendo história de morte, que alcança os valores de comunidade estreita, a própria linguagem, resistindo, vive a nostalgia que só já encontramos em raros autores que ainda abordam «os arredores do paraíso» (outro título, de 1991) além-marânico.

O padre Salviano Taveira (1923) vai, aos 26 anos, paroquiar Vilarinho dos Castelhanos, nome forjado à vista da Serra de Nogueira, perto de Bragança. Desde a também inventada Covelas natal, onde se sonhava ministro de Deus, é homem de um rumo só, até ao momento em que conhece o entrevado padre Agostinho Teodoro, que vai render, e a quem acompanha nos últimos dias. Filho da terra, Agostinho quer deixar testemunho da vida e feitos de um conterrâneo «notável», Francisco Benigno Ochoa (1868-1943), o cónego do título – subitamente, rompem inquietações no policiesco narrador.

De origem castelhana, Ochoa está destinado ao sacerdócio, mas o diabo não dorme: além de um amorio com Virgínia, a fidalguinha do sítio – a qual, já idosa, ainda mede as distâncias em relação ao novo padre −, ele desonra a filha do feitor Querubim, Gervásia, ambos, pai e filha, criações literárias soberbas, sendo que esta, ama do padre Agostinho, instila agora cizânia na imagem do purpurado.

O bispo da diocese de Bragança e Miranda, Dom José de Mariz, eleva-o ao canonicato em 1903; mas porque a inveja de uma cidade farta em cabeções também não dorme, ei-lo a trocar os aposentos no paço episcopal por casa a passos da sua igreja de São Vicente. Nem por acaso, casaram nesta o infante D. Pedro e Inês de Castro, diz a tradição. É um sinal de desvio iminente? Como o nosso cónego precisa de mulher a dias, certos olhos que o marcaram, já, em manhã fria e furtiva, reaparecem ao seu serviço. Segue-se a tentação.

Em 1905, o peso e a responsabilidade do celibato quebrado – teorizará contra o celibato a propósito da quebra dos votos de castidade do mesmo Agostinho (p. 304-305) – obrigam-no a fechar-se na aldeia, interrompendo carreira auspiciosa, intelectualmente reduzido, doravante, à arqueologia que nesses sertões animava um Abade de Baçal. Lugares da cidade e alguns nomes próprios multiplicam os efeitos de real. É um processo comum na ficção de A. M. Pires Cabral.

Desde o início, aquele Salviano pudico – a lembrar o Pantaleão de Mario Vargas Llosa, em Pantaleão e as Visitadoras (1973) –, tão pudico, que, no seu discurso, se eufemiza a soltura dos interlocutores, sabe de casa onde mora a herdeira do cónego, Eduarda, outra preciosa informadora.

O reencontro tardio com a filha pacificara Ochoa; nas suas derivas da caça e do jogo, nas manifestações a favor da Monarquia do Norte de Paiva Couceiro e mesmo de Francisco Franco, ou na loucura que o acomete na morte (que não reconhece) do irmão, Ochoa entende, por fim, que a dignidade estava para lá de insuficiente pensão de alimentos recusada pela mãe da sua filha, que nunca vira: «E – jurava o padre Agostinho – deve ter sido a partir desse momento que o remorso, como um pássaro silencioso e soturno, começou a fazer o ninho na sua alma.» (p. 189)

Falta referir uma fonte não menos singular, Herculano, o jacobino do lugar, rico de expressões que promovem outra verdade dos factos. Com Herculano, reforça-se a palavra da rua, ou a atmosfera de merenda à lareira, segundo estratégia alicerçada em breves histórias interpoladas, com que melhor se oferece um quadro aldeão disputado entre igreja e taberna.

Com tantos «fragmentos de verdade», a que respondem iguais mentiras, fica-se o biógrafo Salviano – não raro, antropólogo em trabalho de campo – na «contrapartida comum de ambas» (p. 318), ou seja, na dúvida, que tudo mina, e protagoniza o romance[3]; nos intervalos, este aclara as ascensões amputadas, os desvios da carne e do verbo, e torna-se jubiloso em ditos e anexins misturados com provincianismos, a par da memória narrativa e irónica de um Camilo tutelar.

No âmbito da crónica, estritamente falando, temos Os Arredores do Paraíso. Crónicas de Grijó (1991), Vila Real ‒ Charlas com Apostila (1995) e Na Província Neva (Crónicas de Natal) [1997]. E, todavia, será a espécie mais regular e pública, tantos anos vão no Repórter do Marão. Impunha-se nova recolha, sendo que algumas deste periódico entram na antologia Aqui e Agora Assumir o Nordeste.

Exercício para teóricos do discurso é ver como se suspende uma narrativa e nasce massa cronística: veja-se que reflexões suscita o cruel mês de Setembro, em Crónica da Casa Ardida, onde se nos deparam outros exemplos. Na última noite de férias, cismando na varanda, o narrador percebe como tudo mudou, nos últimos trinta anos.

Incluamos aqui a crónica-reportagem intitulada Dois Dias em Mende / Deux Jours à Mende (2004), que dá passagem ao itinerarista, não raro, em português / inglês, de Vila Real em suas variantes, de Carrazeda de Ansiães e do Porto.

Na ordem da ficção, pudera esmiuçar designações como novela, narrativa, história infantil; as três peças de teatro são de quinquénio antigo, entre 1977 e 1982; outra especialidade é a do antologiador (sobre emigração, caça, o Corgo, Natal, bestiário); o estudioso é, creio, o mais afectado pela dispersão administrativa, porquanto, se títulos há entre 1979 e a reedição de Vila Real ­‒ Histórias ao Café (com Elísio Amaral Neves; 2013), a imensidão de notas e artigos na hemeroteca pessoal dava bem para volume composto deste velho camiliano, e não só.

Forma natural de comunicação, a linguagem espelha grupos, regiões, países, enlaçando distâncias ou inscrevendo tempos nas mais pequenas unidades de sentido. Comunidades fora do seu húmus, de África às Américas e à emigração europeia, revêem-se no leite expressivo de um vocabulário ancorado na infância; e, assim alimentadas, as almas fixam o transitório das suas vidas em dispositivos seculares abertos à inventiva, seja a variação de um romanceiro, a leveza de quadras soltas, um adagiário aqui e ali peculiar.

A História e a Geografia criaram nichos característicos na metade nordeste, que atraem etnógrafos desde finais de Oitocentos, antes de os etnólogos e seus filhos antropólogos rastrearem do Barroso a Rio de Onor. Pudéramos recuar a versos de António Ferreira, que veio casar a Lamas de Orelhão, Mirandela; a Diogo de Teive e Manuel Severim de Faria, demorando-se em Miranda do Douro; a D. Frei Bartolomeu dos Mártires, nas alturas barrosãs. Todos eles se espantaram com populações resistentes e conservadoras. Este adjectivo ganharia foros de virtude. A vaga mais coerente de um fundo interesse por este solo, seus modos de vida, suas músicas e falares, veio com o médico e poeta episódico José Leite de Vasconcelos, amigo de Trindade Coelho, o qual, além de fautor do Mirandês, acrescentou aos vários ângulos de uma investigação notável, em parte inédita, uma genuína paixão pelo nosso teatro e romances populares, bem como pelo cancioneiro, toponímia e colheita de pepitas vocabulares analisadas na sua Revista Lusitana. Assim, estudiosos maiores ‒ Orlando Ribeiro, Jorge Dias, Michel Giacometti ‒ navegaram por estes montes, acrescentados de linguistas como Paiva Boléo, Lindley Cintra e colaboradores. Emergiu escola autóctone em cada uma dessas disciplinas, de que saíram, até recentes teses na Sorbonne e demais universidades, contribuições indispensáveis de Francisco Manuel Alves e discípulos, não todos ministros de Deus, caso de Hirondino Fernandes (ministro de homens, paciência de santo). Antes da moderna onda de dicionaristas de falares locais, fora, todavia, o padre Joaquim Manuel Rebelo a pegar na tocha baçaliana de glossário regionalista. No Rionorês, Daniel José Rodrigues; no Mirandês, António Maria Mourinho, Amadeu Ferreira / José Pedro Ferreira…

Ora, desde há décadas ‒ que são uma vida inteira para quem nunca perdeu o contacto com as raízes ‒, A. M. Pires Cabral vinha construindo estoutra catedral de palavras, óbolo de ouvinte, leitor e celebrante. Melhor, concelebrante, onde as vozes de vivos e redivivos vêm coroadas pelas abonações de João de Araújo Correia e Camilo Castelo Branco, que se fez em Vila Real. Este certificado de origem, em contexto, deveria ser obrigatório em trabalhos afins. No mínimo, já aponta para um quadro literário regional, que motivos convergentes universalizam, depois.

Essa caução serve à morfologia facetada de inúmeros termos, às inesperadas ocorrências, tal a variedade fonológica. Nem sempre, claro; como nem todas as acepções exigem custódia das autoridades pós-Moraes (aqui, Morais), percebendo-se, então, a capacidade definitória do dicionarista, que veio publicitando excertos ao longo dos anos e afinando metodologias. Olhámos a larga amostra de s. [substantivo], na dúvida se não devera constar m. [masculino] ou f. [feminino]. Intuitivamente, percebe-se o género, e mais facilmente o número, singular ou plural.

Neste terreno movediço, explicações que parecem evidentes ficam interrogadas, sugeridas, moduladas. Oscila-se entre a solução e a proposta etimológica. Ajuda o recurso inter-idiomático, sobretudo, com o muito presente Galego. Mas a sensação de fronteira é mais visível numa das principais dificuldades: fixar as sibilantes b/v. Outra é dar conta de metamorfoses inauditas, convocando terminologia da velha gramática, em que relevamos os fenómenos de queda ou acrescentos fonemáticos ou silábicos, e mais estes (prótese, epêntese, paragoge). Sem a representação fonética, que exigiria outra vida e várias equipas, resolve-se o drama palatal, a variável ditongação, o modo de dizer, cujo esforço interpretativo cabe ao leitor-adivinho, se não for íncola verdadeiro. Terceira vida pediria a datação.

Não vá sem assinalar a experiência de autor, chamada a terreiro, para compor procissão de razões. É maneira agradável dos pioneiros, que assim as acreditam, entre a Gramática da Linguagem Portuguesa (1536), de Fernão de Oliveira, e a Origem da Língua Portuguesa (1606), de Duarte Nunes de Leão. Este investimento do sujeito não deixa de beliscar um paradigma entretanto cristalizado.

Alicerce e incompletude, vademecum e lembrete, desvio e familiaridade, este balanço de mil tarefas conjugadas ‒ e também de uma vida em palavras ‒ responde às lamentáveis dicionarizações de língua e fala ‘charra’ (como se fosse água-chilra), trazendo lustre de dignidade ao que entranhadamente somos. Sério, fecundo e dadivoso, este opus magnum de A. M. Pires Cabral pede menagem e honra Editor.

Língua Charra. Regionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro são 1 174 páginas em 2 vols., a duas colunas ‒ em grafismo nítido, convidativo ‒,  que devemos folhear vagarosamente, de modo a saborear uma fala conservada por gerações, que possuem, agora, o seu tesouro maior. É um trabalho espantoso ‒ de carinho pelas palavras e capacidade de organização, primeiro; de pesquisa, anotação e preocupações até ao derradeiro minuto, sobrelevando quaisquer outros dicionários entretanto conhecidos numa especificidade geográfica e, mesmo, uns tantos monolingues, desde 1783. Integra-se o nosso aventureiro na linhagem de gramáticos de Seiscentos e Setecentos ‒ o padre Amaro de Reboredo e Madureira Feijó ‒, e de bragançanos com consultório linguístico aberto: Augusto Moreno, Raul Machado, Edite Estrela.

Além de criteriosa e longa bibliografia (p. 23-37), que vem abonar grande parte dos vocábulos, importa a experiência do lugar e de uma existência, inclusive literária, que fazia de Pires Cabral o recolector certo de língua que alicerça uma cultura regional. Urge, pois, divulgar, e saudar, dedicação de décadas ao património comum; na sua peugada, voltar, senão a trabalhos classificatórios, aos escritores que homologam pepitas deste erário, a começar num Camilo Castelo Branco familiar querido do nosso reino.

A Nota Introdutória, sob a égide do Garrett romanceiral, é suficientemente clara na exposição de critérios: avisa de uma recolha pessoal, de ouvido (daí, o símbolo da orelha; de ouvido, mas não de outiva), corroborada por um século de fontes documentais ‒ dicionários, filologias, estudos, vocabulários circunscritos, obras literárias, total ascendendo às centenas ‒, conjunto pensado em termos de semântica, sem esquecer timbres fonológicos, alterações fonéticas, composicionais (em que saliento as formas protéticas) ou etimológicas. Excluído o mirandês de uma geografia que ainda abarca a margem esquerda do Rio Douro sob administração já não transmontana e alto-duriense, há sóbrio recurso ao galego.

À medida que folheamos as letras, acumulam-se surpresas, emergem associações que logo vamos confirmar, anotamos o que nos há-de ser de proveito, um dia, e revemo-nos, contra décadas daquele chão, meninos antigos adoptando ou variando estas dicções, enquanto sobressaem  processos que singularizam este trabalho de hércules, sem título profissional de lexicógrafo. Chamaria a atenção para meia dúzia de matizes.

Desde logo, é excepção à regra definir, não um vocábulo, mas somente um contexto, ou seja, palavra em frase ou locução: assim, dicionariza-se ‘abraçar’, ‘abrir’ ou ‘acavalo’ em expressões particulares.

Dois: o depoimento em forma de eu majestático (na primeira pessoa do plural) ocorre muito cedo, na acepção de ‘abade’, ao evocar o de Chacim. É memória rara, de visu, quando, a par da visual sobre meios impressos de vário tipo e online, a memória auditiva sai cumulada.

Terceira característica, da ordem da familiaridade (como a anterior), é a vertente explicativa: veja-se logo na segunda coluna como funciona o jogo do ‘abafa’. Faz passagem à seguinte, num mecanismo ainda intrusivo de narrador, entidade ausente dos dicionários bem-pensantes, abstractos, vagos, quase inúteis.

O vezo pedagógico, orientador, descobre-se de imediato, ao situar a prática do ‘abafador’ na etnografia e na literatura, lembrando, aqui, “O Alma-Grande” torguiano. O Abafador (2011) é, aliás, título do autor transmontano José Lopes Alves. A dicionarística faz-se útil quando multiplica as abonações ou, de modo incomum, como agora, enquadra culturalmente um vocábulo, ou, em ‘abarcas’, se «dá explicação diferente». Esse enquadramento, esse entrechocar, expandem-se, conjugados, em ‘aborrecido’. Noutros casos, sem receio, são avançadas hipóteses, que podem quedar-se pelo ponto de interrogação. No entretempo, há verdadeiras surpresas, próximas da anedota: veja-se ‘afoga-santos’; e a forma de apodar certos povos vira delícia.

Num quinto momento, sobrevém o juízo moral, como se verifica em ‘abalhançada’. O recorrente adagiário completa este segmento.

Tal juízo moral, todavia, não impede a presença das terminologias mais grosseiras, ad hominem, ou, com mais propriedade, ad mulierem, contra as mulheres, denunciando relações sociais e de género dificilmente extirpáveis. Mas, como dos sonhos de exaustividade diz o autor ‒ «[…] trouxemos o pedregulho até aqui. Leve-o mais longe quem possa, saiba e queira.» (p. 9) ‒, direi, quanto a virulência e grosseria, que em nenhum sentido, e menos aqui, esta Língua Charra se pretende bíblia.

Eis seis aspectos distintivos, que enriquecem iniciativa a todos os títulos louvável. Se quiserem número mágico, note-se o recurso, mais do que noutros dicionários, a abonações em verso, específicas do nosso tão rico cancioneiro.

Algumas dúvidas sobrevêm, entretanto, quanto ao método. Poderemos considerar, além dos comuns de duas ou mais regiões, a inclusão de termos partícipes do léxico nacional, os quais estariam a mais nestas páginas ‒ caso de ‘abananado’, ‘abananar’? Talvez. Basta que ‘bagalhoça’ ou ‘balandrau’, também gerais, entrem em autor da região para adquirirem direito de cidade? Ou que ‘sustância’ e ‘variar’ se oiçam pelas nossas terras, quando são gerais? Se assim for, porquê omitir ‘batelada’? Ou porque dar um único sentido a ‘bugiar’? Creio que reside aqui a maior dificuldade, algo como pecar por excesso (que não incomoda), menos venial do que se fosse por defeito.

Na leitura solta que uma obra destas requer, exigindo contributos de falantes e especialistas, nunca seremos de mais a observar maravilhas ou, de súbito, no cotovelo de uma linha, a duvidar de uma asserção ou ortografia: eu preferia ‘absalão’ em vez de ‘abçalão’, que vai contra o espírito desta, mau grado transcrever-se de autoridade amiga; ‘respondão’ também pode ser substantivo, sendo comum ao país: em A Escola do Paraíso, Miguéis dá ‘respondona’.

Exercício mais apetecível é, todavia, aportar novos termos a este fundo linguístico, que varre antecessores: afiadeira (com o sentido de ‘aguçadeira’ para lápis), remela (= ramela); e, se, no jogo do pinhão, na minha Torre de Dona Chama, há ‘arrebunhana’, devemos acrescentar ‘sobraldana’, que, todavia, não sei definir fora desse jogo.

Para outras considerações, e justo elogio, quando só conhecia as primeiras páginas desta magnífica obra, veja-se meu magro prefácio. Quando o conterrâneo Telmo Verdelho refundir os seus trabalhos sobre dicionarística ou lexicografia, há-de olhar a esta tarefa ingente a que um homem só se aventurou. António Baptista Lopes, por seu lado, na já alentada colecção de dicionários, faz jus ao mais operativo dicionarista de Novecentos, um amigo que também editou, o sóbrio José Pedro Machado.

Deixo, enfim, única consideração pertinente ao corajoso autor: que, face ao título de um tão magno empreendimento, demore um pouco mais, na reedição em curso, na explanação do adjectivo… ‘charro’.

Concluindo (sem opinião, ainda, sobre Singularidades, 2017). Há vários modos de contar estes ofícios, pois, em autores como A. M. Pires Cabral, sete significa uma vasta incompletude. Por isso, aguardemos o que lá vem.

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[1] A cura di Giorgio de Marchis, Napoli, Bibliopolis, 2011.

[2] Il canonico, Roma, La Nuova Frontiera, 2009.

[3] Cai bem um Rimbaud, no poema “Soleil et chair”: «Le doute, morne oiseau, nous frappe de son aile…»

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[Expresso – Actual, 26-VI-2004; Estudos Italianos em Portugal, nova série, n.º 7, 2012: 172-174; Prefácio a Língua CharraRegionalismos de Trás-os-Montes e Alto Douro, Lisboa, Âncora Editora, 2013: 7-8; JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, 8-I-2014; Isabel Alves, org., “Da Viagem Que Direi?” Onze Ensaios em torno da Obra de A. M. Pires Cabral, Vila Real, Biblioteca Municipal de Vila Real, 2016: 77-83. Verbetei-o em Dicionário de Literatura, dir. de Jacinto do Prado Coelho, coord. de Ernesto Rodrigues et alii, Porto: Figueirinhas, 2003.]