Por: Ernesto Rodrigues

Estamos mais próximos do sonho de Joel Serrão: ter, na falta da edição crítica da poesia (1873-1886) de Cesário Verde, como já demandava em artigo de 1955, ao menos, a Obra Completa, que veio retomando entre 1963 e 2001. Aquela está dificultada pela ausência de autógrafos, e só conhecíamos o de “Na cidade” (em volume, “A débil”); esta ganha impulso com Cânticos do Realismo e Outros Poemas, em que Teresa Sobral Cunha revela segundo autógrafo, o do fundamental e longuíssimo “Nós”, no espólio de Mariano Pina à guarda da Biblioteca Nacional. Além dos 22 poemas d’O Livro de Cesário Verde, título e corpus que definem uma recepção em vida do recolector, Silva Pinto (1848-1911), que acompanha as três primeiras edições (1887, 1901, 1911; de facto, já impresso em 22 de Outubro de 1910) – com que Joel Serrão abre, acrescentando os 19 aí não inseridos e raras cartas –, Teresa Sobral Cunha tem ousadias que já vou descrever e a riqueza de 32 cartas, sem calar seis do ainda adolescente. Interlocutores e nomes citados, por fim reunidos em índice onomástico mais vasto, são verbetados em notas.

Nas margens de tão reforçada bibliografia activa, antecede um prefácio de Fialho de Almeida e sucede estudo crítico fragmentário, em português e inglês, de Fernando Pessoa. Aquele («Oh meu loiro e divino irregular Cesário Verde! É lendo os rapazes do teu tempo que a minha adoração por ti redunda em fanatismo!», dizia em Vida Irónica, 1892) explica o meio lírico envenenado que Cesário veio salubrizar, sincero e analítico; este espanta-se como alguém desprovido de imaginação, de inteligência e de sentimento (do patético nacional, quer dizer), vira «a poet of unpoetical things», já leitor de Baudelaire e independente do meio. Pessoa reitera o que Caeiro e Campos agradeciam ao membro da trindade maior que se perfazia com Antero e Pessanha; Fialho, morto em 1911, estabelecia a ponte dos fanáticos, e devera introduzir a 2.ª edição, e primeira comercial (1901), pelo que bem se justifica esta inserção. É curioso como o seu texto teria marcado grande diferença em relação à terceira, de 1911, com nota não assinada: transcreve-se Sampaio Bruno já encaixando longa citação de Silva Pinto, a propósito da sua «evocação hallucinatoria visual», mas também sonora: na noite em que Cesário morreu, Silva Pinto ouviu-lhe os passos «firmes, britânicos», por cima da cabeça. A nota só podia ser do mesmo Silva Pinto; as suas ficções, denunciadas por Serrão, vêm agora completadas por correspondência inédita de 1886, e conclui-se que o favor de 1887 não deve empecilhar a posteridade crítica. A investigação de fontes de Sobral Cunha mostra um Pinto incoerente e desejoso de posse ou controlo alheio (estude-se, à luz de vida precária, a sua fixação em novos amigos, até descansar em Camilo, e como quis estar para Cesário como J. Simões Dias esteve para Álvaro do Carvalhal, cujos Contos, 1868, editou postumamente); donde, ter-se decidido pelo único título que Cesário viu anunciado no Diário Ilustrado e não contestou, em Novembro de 1873: Cânticos do Realismo. Estava a começar: na véspera, 12, apresentado por Eduardo Coelho, estreara-se com três poemas no Diário de Notícias (e creio ser temerário antecipar para Agosto a estreia com poema não assinado, que inaugura este volume); mas basta pensar nos quatro poemas sob o genérico “Ecos do realismo”, em Janeiro de 1874, no Diário da Tarde, para não temer romper com título factício.

Nesta conformidade, quebra-se a organização que antepõe O Livro de Cesário Verde, seguido dos que, sem razão plausível, Silva Pinto não incluiu: Teresa Sobral Cunha opta pela ordem cronológica de factura. Apoiada em vasta soma de testemunhos, que carreia nas notas, substitui alguns títulos; sem prejuízo destas, seria preferível ter as variantes em rodapé. E assim se erige a melhor edição de um Poeta-encruzilhada[1], lembrando cuidados em próxima tiragem: rever a pontuação (ganha-se em confrontá-la com Serrão); uniformizar ditongação e certos estrangeirismos; maiuscular astros, meses, estações do ano, sítios (Aljube, Sé, Cruzes); atender a eventuais gralhas (dândys, tíbida, através a, Toca-se as grades); abolir apóstrofos – sobretudo, actualizar de seguido de vogal; resolver a dedicatória de “Nós”.

As opções problemáticas, com sobressaltos na tradição, estão em “Flores venenosas” (em Serrão, “Meridional”), “Ironias do desgosto”, “Melodias vulgares” (“Flores velhas”: omite uma quadra, acrescenta outra, no fecho), “A débil” (prefiro a quadra 11 do autógrafo), “Humorismos de amor” (“Frígida”[2]), “Nevroses” (“Contrariedades”), “Cristalizações” («Voam-lhe estilhaços» é inadequado, no contexto gramatical), “Noitada” (“Noite fechada”), “O sentimento dum ocidental”. Vejamos outras diferenças: «sultão europeu» dá, em Serrão, «sultão em regra» (“Ele”); «e as sedas» / «e entre as sedas» (“Caprichos”); «coches» devia ser «cochos» (“Desastre”); «Roliços! Marinham nas ladeiras» (“Nós”) só tem nove sílabas, sem acento na sexta: Serrão propõe «E Marinham».

Há notícia de dois poemas de Cesário Verde (1855-1886) que ninguém encontra: Joel Serrão, no Diário de Notícias(23-3-1986), e Pedro da Silveira, no catálogo da exposição comemorativa do primeiro centenário da sua morte (Biblioteca Nacional, 1986), lembram “O voto negro” e “Subindo”. Mas nunca se citou “Escândalos”, para que me alertou Mauro Nicola Póvoas, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil), cujo pós-doutoramento orientei em 2008. Subitamente, em Agosto, o nosso interesse por almanaques deu frutos. Disso dei notícia no Expresso – Actual de 18-VII-2009, mas continuam a sair alegadas obras completas ignorando este inédito.

Sejamos claros: não há edição séria de oitocentistas sem rastrear mais de cinco mil jornais e revistas, afora centenas de almanaques; além de correspondência, álbuns e outros suportes. De Antero a João de Deus, é forçosa esta revisão. Quanto a Cesário, diz Silveira «ser quase certo ter colaborado no almanaque Hom’essa! Pist-ò-tira! para 1877» (p. 15), que se não encontra.

O primeiro poema datado, “A forca”, traz 2 de Abril de 1873, sendo um dos três com que se estreia no Diário de Notícias de 12-XI-1873, apresentado pelo redactor Eduardo Coelho, antigo marçano do pai, José Anastácio Verde, com loja de ferragens na Rua dos Fanqueiros. O Diário Ilustrado de 13 logo anuncia vir aí livro intitulado Cânticos do Realismo, em que se apoiou Teresa Sobral Cunha: além de remeter para Agosto a estreia em letra de forma, com versos não assinados na revista Artes e Letras, esta procede a um alinhamento cronológico de 41 poemas (entre outras opções), diverso da Obra Completa (2001) organizada por Joel Serrão, que faz seguir os 22 d’O Livro de Cesário Verde (1887), por Silva Pinto, de 17 aí não incluídos.

Teria sido 1873 um ano tão produtivo para requerer volume? Não creio. Se Cesário não contesta (que se saiba) o título Cânticos do Realismo, certo é que, em Dezembro ou inícios de Janeiro de 1874, imprime e distribui a sátira “Ele / Ao Diário Ilustrado”, jornal que considera um «vómito real». Entretanto, já no Diário de Notícias, já no portuense Diário da Tarde (menos n’A Tribuna e n’A Harpa), 1874 será bem mais produtivo: referem-se, pelo menos, 17 produções com esta data (uma delas editada em 1875), e venho acrescentar um capricho estival. Donde, quase metade da cesárica produção é de 1874 – e, sob outras bases, A República de 27 de Dezembro anuncia livro…

Entre títulos maioritariamente no plural e um efeito-surpresa característico, acrescia o facto de as quatro quintilhas em alexandrinos e quebra hexassilábica comparecerem no Almanach XPTO para 1875 (Lisboa, 1874: 30-31). Lançado como Almanach X. P. T. O. / Popular, Joco Serio, Commercial, Artistico, Critico e Litterario / para 1870, são 32 páginas a duas colunas saídas da Tipografia Universal de Tomás Quintino Antunes, Rua dos Calafates, 110, ou seja, das máquinas do Diário de Notícias, que, hoje, dá nome àquela rua. Apesar do tom, nomes do sisudo matutino colaboram em projecto editado até 1878 (para 1879), também datas do número único do Almanach Escandalo!!!, em que reencontramos Eduardo Coelho e assinatura de um XPTO ainda enigmático, que os dicionários de pseudónimos não contemplam, e pode ser José Inácio de Araújo (1827-1907), um ourives lisboeta, que tanto distribuía versos como bom humor. O exclusivo deste J. I. d’Araujo, como assinava, está no segundo ano da publicação, em 1871 (para 1872); regressa em 1873 (para 1874) como Almanach XPTO / Comico, Burlesco e Satyrico[3], com a surpresa de, entre outros, até ao final, conviverem Brito Aranha, Gomes Leal, Júlio César Machado, Bulhão Pato, João de Deus, Costa Goodolphim, Guerra Junqueiro.

Sem subtítulo, mas capa de Columbano Bordalo Pinheiro, o relativo ao 4.º ano de publicação encaixa o de Cesário como terceiro num lote de sete poemas, sendo nomes mais conhecidos Júlio Rocha e Santos Valente. Também sem nome de autor no sumário, aqui se transcreve, ipsis verbis (apesar de arrepios ortográficos, sobretudo, no derradeiro e cínico verso, em resposta a mulher de fogo),

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Escandalos

Fallava-lhe ella assim: – «Não sei porque me odeia,

«Não sei porque despreza a luz dos meus olhares,

«Se o adoro com fervor, se não me julgo feia,

«E o meu olhar eguala as chammas singulares

«Do incendio de Pompeia!

«Instiga-me o aguilhão do vicio fatigante,

«E crava-me o capricho os vigorosos dentes;

«Não quero o doce amor platonico do Dante

«E sinto vir a febre e as pulsações frequentes

«Ao vel-o, ó meu amante!

«As ancias, as paixões, os fogos, os ardores,

«Allucinada e louca, eu vejo que abomina,

«E ignoro com que fim, em tempos anteriores,

«Enchia-me de gosto a bôca purpurina,

«E o seio de calores!»

E elle ao vel-a excitante, hysterica, exaltada,

Volveu lhe glacial, britannico, insolente:

– «A tua exaltação decerto não me agrada,

«E, ó minha libertina! eu quero-te somente

«Para mecher salada!»

Lisboa, agosto, 1874

CESARIO VERDE

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© Ernesto Rodrigues

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[1] Estudos sobre Cesário Verde detectam, além do Parnasianismo, Realismo, Impressionismo, outras correntes: Expressionismo e Surrealismo. Mas, quanto às indicadas, diremos que o seu parnasianismo (evidente em, p. ex., “De tarde”), com o que este tem de objectivação e despersonalização da poesia, pede um rigor vocabular vizinho do prosaísmo e da «exaltação da salubridade burguesa», que Urbano Tavares Rodrigues aproxima, mesmo, de «um temperado republicanismo, uma solidariedade, isenta de pieguice, com a classe trabalhadora». Esse desejo de naturalidade do verso, incluindo a frieza sintáctica, que povoa o Livro de Cesário Verde (1887), é de extracção parnasiana. Também as mulheres, frias ou lúbricas, emergem de considerações cínicas sobre o amor. Essas imagens cristalizadas, ainda de escola, à João Penha, depressa são vencidas pela variedade apanhada ao vivo na cidade que rodeava (ou em que vivia) o sujeito. Os seus azulejos humanos de Lisboa, com menção de figuras que, conjugadas em painel, dão um quadro fresco e activo da capital, transformam-no em realista lírico, ainda pugnando pela saúde, pelo trabalho produtivo, pela solidariedade, pela crença no progresso. Mas, se um vocabulário concreto, de objectos tangíveis, nele desagua e forma um caudal realista, tal a reprodução que ensaia do meio que o circunda, já, noutros momentos, a «irrealidade» o tenta, como quem precisa de dar uma ‘impressão’ nem sempre fácil com os meios sensoriais à disposição. O Impressionismo (1874) é seu contemporâneo: pura e imediata, a percepção vive do fragmento; é uma espécie de realismo das sensações, mas tudo se esfuma, porque o objecto em si é menos importante do que o seu efeito. A hipálage é aqui aproveitada: em «Amareladamente, os cães parecem lobos», explica J. do Prado Coelho, avulta «a sensação inicial, só depois referida ao objecto»; em «Ombros em pé, medrosa e fina, de luneta!», vamos «combinando sensações e misturando o físico e o moral», etc.

[2] Este poema integra-se num conjunto em que o «eu» masculino castiga mordazmente a mulher. É preciso descrevê-la, «gélida mulher bizarramente estranha», e notar a nacionalidade inglesa. Segue, então, o retrato da femme fatale do tempo, ainda hoje comum. Ora, recusando o cerebralismo balzaquiano, o poeta sente-se fascinado por tanta frieza, mas, paradoxalmente, queda-se por uma expectativa passiva. Seria preciso, aqui, perceber a oposição entre adjectivos; entre o definido «a» e o indefinido «ninguém»; a oposição entre campos semânticos («paz dos céus», «assombro dos infernos»); como frieza se casa com dureza, etc. Há uma boa análise do poema em Janet E. Carter, Cadências Tristes, Lisboa, INCM, 1989, p. 125 ss.

[3] Sobre a «expressão chula» e superlativante XPTO – [istoé de XPTO –, do grego (embora lida segundo o sistema gráfico latino), «que designa excelência», talvez baseada «em qualquer anedota de caloiros», já se debruçara Carolina Michaëlis de Vasconcelos, em Lições Práticas de Português Arcaico, Coimbra, 1913: 52; entretanto, o exemplário de João da Silva Correia, “Reflexos filológicos dos sinais gráficos e do seu aprendizado”, Revista da Faculdade de Letras (Lisboa), t. I, 1 e 2, 1933: 129-130, também esquece este almanaque.