Entrevista com Ernesto Rodrigues

Quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?

Confessei, no limiar da tese de doutoramento (1996), ter entrevisto, em Cuore. Libro per i Ragazzi (1886), a primeira, e inolvidável, relação entre contar e comover. A ilusão era completa: tratava-se de “un alunno di terza”, de oito anos, como eu, que “notava man mano in uno quaderno, come sapeva, quello che aveva visto, sentito, pensato, nella scuola e fuori”. Eu perseguia, mormente, o excitante ‘Racconto mensile’, por fim em lágrimas no que narra as andanças do pequeno genovês Marco, que, “Dagli Apennini alle Ande”, busca as origens, seja, a mãe – motivo de eleição na minha prosa. Longe de mim compreender que, nesse Coração traduzido por Miguel de Novaes (irmão de Faustino Xavier e de Carolina, casada com Machado de Assis), sobrenadava a visão de uma outra Itália, na pós-unificação, úbere de virtudes e patrioticamente sentimental. Ou como um país de comunas, senhorias, fragmentos – assim as aventuras encaixadas no percurso da personagem –, se torna adulto.

Esse desejo inconsciente de emular quem nos surpreende activou-se desde os dez anos; aos 14, tinha dez capítulos à Camilo bem argumentados, e, aos 16 [1972], em vésperas de me estrear na poesia (Inconvencional, 1973), inaugurava a contística de A Flor e a Morte (1983), variedade precedida pela estreia ficcional de Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980).  A publicação desta novela, celebrada no tempo, impôs-se desde 1978, quando já ia em três livrinhos de versos e presença na antologia de Maria Alberta Meneres, O Poeta Faz-se aos Dez Anos(Assírio & Alvim, 1973).

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?

Viageiro atento a factos civilizacionais, com cinco anos em expatriamento dourado sobre o Danúbio, tudo vai do espírito do lugar, que me fez, simultaneamente, comunidade local e regional, ou já povo transladando-se em continentes. Desde João de Barros e da nossa rica cronística, História e Geografia são índices de Modernidade; no meu caso, uma geografia particular, ora na Pátria Breve (2000) nordestina, ora em movimento, que cumulei n’A Serpente de Bronze (1989), rodando entre Santa Apolónia e Budapeste, na demanda de uma Europa unida, ou casa comum europeia concretizada em 2004. Rolam Espanha, França, Alemanha, Áustria, e convoco Itália, segundo personagens incomuns. Lisboa e Bled (Eslovénia) quinhentistas são cenário n’O Romance do Gramático (2011); Londres e o Afeganistão, em Uma Bondade Perfeita (2016). Moçambique está em dois romances inéditos. E correm, entretanto, a par da linha de Cascais, de uma Lisboa parlamentar (Passos Perdidos, 2014), uma Torre de Dona Chama (1994) natal e A Casa de Bragança (2013), cidade onde me justifiquei escritor, e nos passeia até Fez e Europa Central medievas. A História vem desde D. Afonso Henriques, segundo parataxes e outras formas de apresentação do tempo.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?

Demanda e desvelamento, em busca da conseguida serenidade. Pais e filhos que se buscam, mesmo se julgam ir noutro sentido, como no inédito Um Passado Imprevisível. Outrem também dirige as nossas vidas, e, ainda que ao lado, há rostos fechados que a composição ilumina. Enquanto se constrói uma relação, cria-se um espaço, seja o da língua portuguesa em seus vultos maiores, seja o de uma nova Europa, mas também o da memória de infância, de uma juventude filtrada, até ao sacrifício digno e à bondade.

 

Que aspectos destacaria na sua mais recente obra, Uma Bondade Perfeita, que acaba de vencer o Prémio PEN Clube Português (Narrativa)?

Numa alternância de dois narradores (com seus nomes curiosos, Clemente e Filodemo, a par dos demais, significativos, cuidado que sempre tenho) sempre aquém da omnisciência, tem este romance, logo nas primeiras linhas, solução que só se abre na última página. Esta diligência ‘policiária’ acompanha-me regularmente.

Em 2010, quando o terminei, falava-se pouco de refugiados, mas eu sentia que essa condição em que ciclicamente se vê a humanidade voltaria a assombrar a Europa e o Mediterrâneo. Também cabe à literatura sinalizar ameaças. O pano de fundo de uma catástrofe colectiva remetia-nos, ao tempo, para o Afeganistão, onde coloquei, numa guerra e lugares indefinidos, vítimas de carne e osso, percursos individuais determinados pelo psicopata Menigno.

Quem nos salva é, não o altruísmo mecânico de mãe biológica, mas Ágata (bondosa, em grego), que, erguida entre as maiores violências, persegue o bem supremo da paz de consciência, e culmina neste Séneca: «Sabes o que eu chamo ser bom: ser de uma bondade perfeita, absoluta, tal que nenhuma violência ou imposição nos possa forçar a ser maus.»

A humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem, assim, nos venceu. É isso a escalada da guerra, não raro alimentada pelos media manipuladores. Ser defensivo é outra coisa, e, desde logo, obviar à iniquidade, que conduz à servidão, nem que a única saída, sempre em aberto, seja a morte – digna, como a de Ágata.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?

Afora a emoção da estreia (1973), cujos 40 anos foram comemorados com dois títulos – Do Movimento Operário e Outras Viagens, poesia, e A Casa de Bragança – e celebrações oficiais nesta cidade, na terra natal e na Assembleia Municipal de Mirandela, retenho a recepção crítica tangente às sugestões narrativas de Várias Bulhas… e às aventuras da língua e de modos dialógicos n’A Serpente de Bronze, enquanto espero que alguém veja a disseminação polifónica de Bakhtine em Torre de Dona Chama. Como não me distingo do investigador, crítico e ensaísta que também sou desde a adolescência, marcante foi, após 23 a pensar em Tomé Pinheiro da Veiga, editar-lhe Fastigínia (2011), sabendo embora que Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal (1998) tem maior repercussão. Enfim, o tradutor agradeceu os galardões máximos do Estado húngaro atribuídos a um intelectual estrangeiro.

O que é, para si, um bom livro?

É aquele que autoriza estas perguntas: como se combinam, pertinentemente, os elementos na sistematização, ou concorrência, da obra? Como se inscreve esta, e o seu género, na solidária evolução literária? Como se relaciona (e, com ela, o sistema agora já transformado) com os díspares subtextos (social, económico, etc.)? Nem todos os livros são essa composição problemática.

Sei, também, que, sendo (1) instituição, a obra vive na sua precária (2) autonomia interna; se for (3) um saber primeiro – que me comove –, e puder questionar as bases da inquietação e prazer, para em mim encontrar o que no texto vejo, melhor ainda. Nem sempre coincide essa tripla frente; mas bastam alguns reconhecimentos nocriador que sou, além de leitor, para considerar o livro bom.

E o que faz de um escritor um bom escritor?

Eu desejo morrer escritor, sem o valorativo bom, que posso aplicar às obras (desde logo, às anónimas); mas uns são preferidos a outros, como sabe quem actualizou o Dicionário de Literatura (2003-2004) de Jacinto do Prado Coelho. Capricho do tempo, podem ser melhores, sem que os ausentes não deixem de ter qualidade. Estou verbetado em vários dicionários; não, neste.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.

Escrevi sobre, e traduzi, umas centenas de títulos, além de ter falado sobre outros em aula, e lido obras-primas que não verti em prosa crítica. O herói d’A Serpente de Bronze leva para férias europeias cinco livros: Os LusíadasPeregrinaçãoHistória Trágico-Marítima; Itinerário, do padre Jerónimo Lobo; Jornada d’el-rei D. Sebastião a África. São exemplares, inclusive no anonimato autoral, de imagens da nação, que persigo. Substituo os dois últimos pela Castro, de António Ferreira, e Fastigínia, completando o septeto com Os Maias e a minha edição crítica d’A Queda Dum Anjo (2016). Autores de eleição: Cervantes, Flaubert, Kafka, Pessoa, Buzzati, Borges, Márai.